“O novo despertar da economia pode trazer uma realidade diferente”

Mais utilização de plataformas digitais, maior uso de ferramentas de actividades online, tele-trabalho como opção, serão marcantes na vida pós-COVID19. Francisco Príncipe deixa aqui uma carteira de sugestões, de quem tem experiência avalizada no comércio internacional. Ao defender que a UE deveria ter e manifestar vontade de reequilibrar todos os acordos comerciais que regulam o comércio internacional.

GA! – Como foi encarada a crise do vírus Corona?
FP –
Para acudir à repentina e aguda crise económica que nos aflige, não existiam, e ainda não existem, compêndios teóricos nem práticas de protocolo para a sua mitigação, por parte dos gestores, empresários e dirigentes políticos. Claro que, para os mais avisados, os muitos sinais negativos sobre a sustentabilidade do crescimento da riqueza mundial a partir de 2018, fizeram ativar alarmes, obrigando, esses, mais avisados, a pensar em soluções para um novo ciclo económico que poderia chegar a qualquer momento. Estes, estão muito possivelmente mais preparados para corresponder às novas exigências. Mas respondendo diretamente à pergunta, eu diria, que cada empresa, reagiu, numa primeira fase de forma intuitiva, recorrendo aos mecanismos de ajuda por parte do Estado, caso se enquadrassem, ou recorrendo a oportunidades de última hora que o mercado pôde ainda proporcionar, e que pudessem equilibrar a tesouraria. Passadas estas seis semanas, temos de ultrapassar a fase da reação, e estruturar planos que possam ser implementados assim que a economia comece a despertar, e sim, este despertar pode trazer uma realidade diferente, e não só ao nível sanitário.

GA! – Que reflexões aporta esta crise para a economia e tecido industrial?
FP –
Por um lado, devo dizer que, no meu caso, tenho refletido bastante mais sobre as questões sanitárias. Esta pandemia, e suas proporções sanitárias é algo que eu já não acreditava que fosse possível acontecer nesta zona do globo. No plano económico, é evidente que deixa a nú como a nossa sociedade está alicerçada no dinamismo da economia, e essencialmente como dela depende. O tecido industrial, como peça primordial da engrenagem da economia, terá de acelerar as já existentes tendências de utilização das plataformas digitais e outras ferramentas de atividades online. Também o tele-trabalho surge definitivamente como uma opção para todas as empresas e colaboradores, mesmo fora deste cenário de crise.

“A Europa dever-se-ia questionar se faz sentido neste momento manter as taxas alfandegárias face a alguns países, nomeadamente a China…”

GA! – Portugal tem de conquistar à China parte da sua força industrial?
FP –
Não estimo que seja possível a retoma da força industrial para níveis de há 20 anos, até porque a sociedade e a nossa economia se foi reinventando. Mas, na minha opinião, e seguindo na esteira do caminho já percorrido pela maior economia do mundo, os acordos comerciais devem ser reequilibrados nesta fase. Não cometendo o mesmo erro dos anos 90, querendo de uma hora para a outra mudar todo o paradigma do comércio internacional, a Europa dever-se-ia questionar se faz sentido neste momento manter as taxas alfandegárias face a alguns países, nomeadamente a China, de uma forma tão desequilibrada como se encontram neste momento. O que sempre me obrigou a refletir durante os últimos 25 anos, sobre a economia e a sobrevivência e crescimento do nosso tecido industrial, foi sem dúvida a brusca e precipitada implementação da globalização. Este processo, mas principalmente a sua rapidez, provocou um enorme aumento de fluxos financeiros do ocidente para o oriente, retirando capacidade de capitalização e investimento em inovação e desenvolvimento ao tecido empresarial português, prejudicando de sobremaneira a produtividade média das empresas, retirando-lhes competitividade no mercado global. Com isto, também as contas publicas foram bastante prejudicadas. Enfim, fomos empobrecendo, a favor, sem dúvida, de alguma população necessitada, mas em boa parte enchendo os “bolsos” de poucos que se aproveitaram deste processo. Temos de lutar agora para que exista reversão nos fluxos financeiros, que já acontece no plano dos investimentos chineses em Portugal (perda da nossa soberania económica), mas agora pelo caminho do comércio de bens e serviços. A maior abertura do grande mercado Chinês aos produtos europeus, abre às empresas portuguesas enormes desafios. Os orientais estão recetivos aos produtos europeus, mas são também bastante exigentes no que diz respeito à excelência dos mesmos. No que diz respeito, ao ganho de quotas de mercado internacionais, as empresas portuguesas continuam com inúmeras desvantagens competitivas face à China, e face a empresas dominadas pela China em países seus vizinhos.

GA! – O que será estratégico na nova ordem económica, se podemos falar já disso?
FP –
Se em algumas zonas do globo, as questões alfandegárias são mais justas, entram agora em jogo os outros fatores competitivos:
a) As empresas chinesas a partir de certo patamar entram na órbitra do Estado, e assim asseguram financiamento para as suas operações. Obtêm aqui uma vantagem competitiva muito forte, pelo menos enquanto o Estado tiver facilidade em obter divisas;
b) Também as questões fiscais são bem diferentes. O estado social que nos orgulha e que devemos defender, obriga a uma contribuição de todos nós, incluindo as empresas, facto que nos volta a desfavorecer face às empresas chinesas;
c) A questão da energia é das mais importantes, e seguramente das que mais prejudica as nossas empresas. Todos sabemos que a nossa sociedade investiu, e agora paga, a energia limpa e renovável. Tudo isso também nos orgulha, mas como é evidente também nos desfavorece competitivamente. O que me espanta, é que continuamos, alegremente, a não taxar significativamente os produtos importados, e que são elaborados à custa da degradação do planeta. Todos sabemos o que se passa na China em termos de poluição. Seja ela na atmosfera ou nos solos;
d) Também as questões laborais têm aqui um papel que nos desfavorece. Neste caso não é só face à China;
e) Para contrabalançar tudo isto, temos um povo, o nosso, que alicerçado por uma cultura e costumes cristãos, se foi reinventando e sobrevivendo, e ainda que tendo quase tudo contra si, consegue deixar a sua marca em todo o mundo;
Respondendo diretamente à sua pergunta, digo-lhe francamente, que, com vontade política, a indústria portuguesa conseguirá crescer, ganhando quota de mercado na China, nos restantes mercados globais, e também bastante importante, vamos conseguir substituir importações por produção nacional, controlando naturalmente a tendência inflacionista que poderá provocar, e revertendo o déficit da balança comercial, que se deteriorou nos últimos anos como consequência da política de privilégio ao consumo, em detrimento da produção nacional.

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GA! – E para essa reindustrialização quais as áreas/ sectores de investimento a apostar e
desenvolver?
FP –
O mercado global favorece os melhores produtos e os melhores serviços ao melhor preço. Neste sentido todas as áreas/ sectores em que somos competitivos podem ser alvo de aposta e desenvolvimento. Com o devido investimento em inovação e desenvolvimento, vários sectores podem ter sucesso no mercado internacional. Utilizando recursos próprios, como o turismo, a agricultura ou nossa zona económica exclusiva, ou importando matérias-primas de outros países para que lhes possamos acrescentar valor, acredito que Portugal pode crescer nos mercados internacionais em todos os sectores, os tradicionais e os que privilegiam os serviços das startups. As startups, que derivam quase sempre do trabalho universitário serão sem dúvida, o principal alicerce para o crescimento da produtividade da economia portuguesa.

GA! – Que vantagens/ desvantagens trouxe ao momento actual?
FP –
A vantagem que a crise trouxe foi a emergência para se encontrarem soluções para a mitigação dos seus efeitos económicos, o que, de facto, obriga todas as classes profissionais a questionarem a sua forma de contribuir na sociedade, adicionando-lhe valor. Claro que as desvantagens são inúmeras, desde as questões sanitárias, a todas as implicações económicas que emergem das enormes perdas na riqueza produzida. Neste momento temos já, para muitos cidadãos, situações gravíssimas de perda de rendimento, que balizará de uma forma mais apertada o conforto e o nível de vida dos portugueses. Também o sistema financeiro, que recuperava desde 2014, pode ser bastante afetado por esta crise, o que traz óbvias desvantagens para a economia.

“Temos de ser capazes, por um lado, de nos adaptarmos sem dúvida, à comunicação e ao negócio online. As novas gerações não perdoarão a quem ignorar estas ferramentas…”

GA! – Que paradigmas podem ser mudados no seu sector de atividade em particular?
FP –
No nosso sector em particular, temos de ser capazes, por um lado, de nos adaptarmos sem dúvida, à comunicação e ao negócio online. As novas gerações não perdoarão a quem ignorar estas ferramentas. Por outro lado, a inovação e desenvolvimento, terão de ter um maior peso no valor que a empresa consegue adicionar aos seus produtos.

GA! – Que desafios se adivinham no horizonte?
FP –
Com já disse anteriormente na questão da retoma da força industrial, o sucesso dos bens e serviços portugueses no mundo, depende sempre de cada um de nós e da nossa resiliência perante todos os obstáculos, mas depende também, de líderes políticos, neste caso, os europeus, que consigam entender a multiplicidade das economias de toda a Europa e que minimizem as inúmeras desvantagens competitivas que as empresas (portuguesas) têm, face à concorrência global.

GA! – Que novidades podem surgir no comércio internacional, já ou após a crise?
FP –
Com toda a certeza, haverá em todo o globo uma motivação para que, de certo modo, se penalize o comércio com a China devido à pandemia. Mas todos sabemos, que, no comércio internacional não há caridade, e continuarão a ter mais sucesso, as empresas que produzam os melhores produtos e prestem os melhores serviços, com os melhores preços e condições. Para isso dependem muitos fatores que regulam o comércio internacional, e que são decisivos para a competitividade das empresas. Na minha opinião, a melhor novidade que poderia emergir desta crise, seria a unidade e a vontade europeia em reequilibrar os acordos comerciais que regulam o comércio internacional, principalmente no que diz respeito à China e países circundantes, como o Camboja, o Vietname entre outros.

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