Paulo César Gonçalves
Nasceu em Guimarães, voltado para o Castelo da Fundação, e, até ver, está vivo.

Carta ao Paul

Estamos na véspera dos teus 80 anos, Jamie. 80 anos, e tu já viveste, pelo menos, 4 ou 5 vidas dentro deles.

Não vou cair na tentação de escrever que te “devemos” isto e aquilo. Não vou. Cada um que assuma a sua dívida. Vou escrever sobre o que eu te devo. E, sobretudo, que tu não sabes que to devo.

O Graham (Nash) dizia que, no fim dos anos 50, havia uma linha imaginária, mas por outro lado bem real, que dividia a Inglaterra a meio: o norte dos pobres e o sul dos súbditos de sua majestade. Tu, com o John, com o George e com o Ringo apagaram, não sei se com uma borracha, essa linha:

  • Nós somos os Beatles, somos da classe trabalhadora, e vocês, jovens ingleses, podem fazer o que nós fazemos.

Começava a maior revolução cultural do século XX. De Liverpool, da suja, perigosa e cinzenta Liverpool, para o mundo. E de Hamburgo.

Em casa, muitos jovens tentavam perceber o que tinham acabado de testemunhar.

Seguiu-se a América, e toda a gente sabe, ou melhor, eu sei, que há um antes e um depois do 9 de Fevereiro de 1964: nesse dia, ou nessa noite, o país parou. Não houve registos de crimes durante a tua actuação, da vossa actuação, no programa de Ed Sullivan. Em casa, muitos jovens tentavam perceber o que tinham acabado de testemunhar. As vendas de guitarras e instrumentos musicais dispararam, e os grupos cresceram como cogumelos.

A imagem era polida, mas os cabelos, as atitudes e a música eram irreverentes e uma absoluta novidade. Para as crianças e os jovens do pós-guerra, tu, os Beatles, trouxeram esperança. Doses absurdas de esperança.

Veio a revolução sexual, a revolução de modos e maneiras, a revolução nas ruas de Paris e o amor desmesurado de Woodstock. Neil Armstrong pisou a lua, mas tu já lá tinhas estado. Tu e os outros três.

O mundo mudou, James Paul, ou Jamie, deixa que te chame Jamie, como se fosse família, porque é assim que te vejo, e o teu patrocínio para essa causa está todo lá.

Não são apenas 80 anos, Paul, são muitos mais, e eu agradeço-te por todos. E por tudo.

Gosto de pensar que o teu disco a solo, Flowers in the dirt, é sobre o que tu, e os restantes Beatles, fizeram com Liverpool. E com o mundo. Obrigado.

© 2022 Guimarães, agora!


Partilhe a sua opinião nos comentários em baixo!

Siga-nos no Facebook, Twitter e Instagram!
Quer falar connosco? Envie um email para geral@guimaraesagora.pt.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

- publicidade -
- publicidade -
- publicidade -

Leia também