Paulo César Gonçalves
Nasceu em Guimarães, voltado para o Castelo da Fundação, e, até ver, está vivo.

Ana Nogueira e Fernanda Falcão

Este é um texto de e sobre gratidão. É um texto sobre duas Professoras (e não um texto sobre Professoras, ou Professores, em geral).

Concordo quando se diz que um Professor, ou uma Professora, é muito importante. Não concordo quando se transformam essas frases em chavões acríticos.

Um Professor, ou uma Professora, podem ser muito importantes, quando acrescentam, quando fazem a diferença, quando deixam mais do que aquilo que existia, pela positiva. Um Professor, ou uma Professora, são muito importantes, mas são-no na mesma medida de todas as outras profissões que acrescentam, que permitem que a máquina do mundo evolua, sem atropelos, sem primazias, sem ditaduras do privilégio.

Cresci no seio das classes baixas. Sei bem como as coisas se cosem e se passam. Eu vi e vivi as lutas diárias. Os dramas. As dificuldades. Não estou a comiserar-me: dentro disso tudo, fui sempre um privilegiado em relação a muita gente, à grande maioria. O meu Avô Materno fez a luta antes de mim. Os meus Pais também, mesmo apartados, empurrados para uma vida de sacrifício. Muitos dos meus colegas de carteira acabaram por seguir a mesma via dos seus Pais e Avós.

Porque não se esforçaram?
Porque não “tinham cabeça”?
Porque “eram burros”?

Não. Porque a máquina precisa de gente para explorar. O estudasses, expressão parva e cruel, é uma tenda de enganos.

Mas nunca foi por causa da Professora Ana Nogueira, ou da Professora Fernanda Falcão. Não. Houve outros casos, claro, poucos, mas quero prestar a minha sincera homenagem a estas duas Mulheres, Professoras, de facto (e não licenciadas, ou diplomadas, em ensino, que é algo bem distinto).

Uma vez, perguntei a uma das filhas da Professora Ana, que foi minha Professora Primária, do 1º ao 4º, na Escola Primária de São Roque (Costa, Guimarães), qual era o Autor preferido dela. A resposta não me surpreendeu: Alves Redol.

Fazia todo o sentido. A consciência social, a bondade, a ausência de condescendência e a empatia da Professora Ana ainda hoje me regem. Ela viu-me como eu era e de onde eu era. Não vou cometer a ousadia de escrever por outras pessoas que comigo partilharam aquela sala de aula (1º piso, lado direito, durante 4 anos), mas sei que o impacto foi similar. A Professora Ana não me impôs nada. Deixou-me ser quem eu era.

Depois, nos 5º e 6º anos, na Escola Professor João de Meira (Guimarães), apareceu-me a Professora Fernanda Falcão, de Educação Visual. A Professora Fernanda viu o que eu poderia ser, ou a semente do que eu já era:

  • tu és um Artista.

Não há nada mais importante do que o poder da escolha.

A Professora Fernanda ofereceu-me o poder da sugestão. E uma outra visão sobre o poder da escolha. Não há nada mais importante do que o poder da escolha. Não havendo escolha, sobra ditadura, opressão, controlo. Muitas das nossas relações se esgotam numa falsa noção de poder. São construções sociais que podem ruir a qualquer momento. Ilusórias. Não se confunda respeito com autoritarismo ou poder.

Saí do 6º ano com noções possivelmente definidas, mas frágeis, porque a vida é incerta, e nada nos prepara para a sua imprevisibilidade. Gostamos de acreditar que temos esse poder. Não temos. Somos folhas desprendidas ao sabor do vento. Mas convém que saibamos que tipo de folhas. E de que Árvore.

O que eu tenho de bom devo-o a várias pessoas. A Professora Ana e a Professora Fernanda são, definitivamente, duas delas. Este é um texto de e sobre gratidão. Para ambas.

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