Portugal recebe duas exposições individuais do artista transdisciplinar Tales Frey que colocam no centro do debate uma das maiores crises ambientais da actualidade: o impacto da indústria da moda e a cultura do descarte. Realizadas simultaneamente em Guimarães e Lisboa, as mostras propõem uma reflexão sobre sustentabilidade, consumo, memória, identidade e responsabilidade colectiva.
A primeira exposição, ‘Quando um Corpo já não está presente’, inaugura no dia 12 de Setembro, no CAAA – Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura. O conjunto de obras foi produzido a partir da recolha de centenas de quilogramas de roupas abandonadas em contentores urbanos do Norte de Portugal.
Ao deslocar essas roupas do circuito do lixo para o espaço expositivo, Tales Frey confronta o público com o paradoxo da produção acelerada de vestuário e da sua rápida obsolescência. As peças deixam de ser apenas resíduos e passam a funcionar como vestígios de vidas, corpos e histórias ausentes, revelando aquilo que a sociedade de consumo insiste em tornar invisível.
Poucos dias depois, em 25 de Setembro, ‘Dia Nacional da Sustentabilidade’, o artista inaugura ‘Em Suspensão’, no Museu Nacional do Traje, em Lisboa. A exposição reúne trabalhos recentes que investigam a roupa como corpo político, arquivo de memórias e dispositivo crítico, articulando questões ambientais, sociais e identitárias.
A inauguração adquire uma dimensão simbólica adicional por acontecer num momento singular da história da instituição. Embora o Museu Nacional do Traje permaneça temporariamente encerrado para obras de reabilitação no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, a exposição será aberta ao público, reafirmando que a missão de um museu ultrapassa os seus edifícios e se concretiza na continuidade do acesso à cultura, ao pensamento crítico e ao encontro entre arte e sociedadade.
As duas exposições propõem uma tomada de posição perante um modelo económico baseado na produção excessiva, na exploração de recursos e na descartabilidade. Ao transformar roupas rejeitadas em esculturas e instalações, Tales Frey questiona o destino dos tecidos e as relações entre consumo, corpo, memória e cidadania.
A programação em Lisboa inclui ainda a palestra ‘Indumento Performativo: corpo, memória e resistência na arte contemporânea’, realizada no próprio ‘Dia Nacional da Sustentabilidade’. Percorrendo vinte anos de produção artística, Tales Frey apresenta o conceito de “indumento performativo” e discute o vestuário como extensão simbólica do corpo, dispositivo político e ferramenta de participação social.
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