Hoje e 100 anos depois e teríamos o Café Oriental com a áurea e o prestígio do Majestic, no Porto, dando sentido ao coração da cidade.
A destruição selvagem, em 1967, ou seja 42 anos depois de ter sido fundado pelos seus sócios e proprietários – os irmãos José e Francisco Costa Magalhães, Eugénio Leite Basto e José Fernandes da Costa Abreu – foi mais do que um atentado ao património.
O Oriental era então o único café no coração da cidade, um símbolo do vimaranensismo – que não se ergueu, então, contra a destruição de imagens de uma outra civilização e que tornou o café autêntico e inspirado na imaginação de Luís Augusto Pina Guimarães.
A passagem do seu centenário, em 19 de Dezembro de 2025, foi visível numa iniciativa da Muralha – Associação de Guimarães para a defesa do Património e da Sociedade Martins Sarmento que alegrou a memória dos vimaranenses numa exposição de celebração mas com significado pois muitos ainda se interrogam como é que foi possível destruir e fazer desaparecer um ícone da cidade, de há cem anos.
Vivida como acontecimento no seu tempo, a abertura do Café Oriental marcou a história de Guimarães e a vivência urbana de uma cidade, um acontecimento igual à reconstrução da Tourada (1947) ou até à fundação da Unidade Vimaranense (1970).
“Essa alma existe, só que está um pouco adormecida” – assinala Rui Victor Costa, presidente da Associação Muralha.
A inauguração do Oriental, como café único de uma cidade histórica e fundadora da nacionalidade, foi ironizada pela imprensa da época, como “uma vergonha” que se sentia e desapareceu ao dotar a praça do Toural com um café.
“Éramos tão improgressivos que nem um café tínhamos para receber.”
A.L. de Carvalho, famoso cronista vimaranense, escrevia, a propósito do nascimento do Oriental que… “um café moderno não existia”, acentuando o que se dizia que “éramos tão improgressivos que nem um café tínhamos para receber”.
O Café Oriental foi, também, uma resposta da sociedade civil, complementada com “o fascínio pela civilização egípcia” que na época enchia os jornais, alinhando na moda de propagandear Tutankhamon, o faraó que tornou brilhante da civilização oriental.
Um contributo para a afirmação da cidade urbana a que se seguiu o Milenário (1953) e depois as pastelarias Docélia e Benamour, ao mesmo tempo que o Café Toural.
Mas a inauguração do café mostrou, também, um criador cultural, o artista e pintor Manuel Joaquim, de apelido ‘Panchorra’ responsável pelas pinturas do interior do estabelecimento. Uma obra cultural fruída pelo público, esplendorosa na sua concepção, cuidada no esmero da pintura de tectos e paredes e um design de mobiliário condizente. E imaginada por Luís Augusto Pina Guimarães, que tinha conhecimentos bastantes sobre as últimas investigações feitas nos túmulos dos faraós egípcios.
“A cidade Património Cultural da Humanidade acolheria de bom grado o café desaparecido” – salientou Rui Victor Costa na abertura da exposição.
A sua importância histórica, a sua valia artística e o seu contributo para a vivência da cidade fez com que “esta exposição honesta, contida, funcione apenas como um justo tributo a quem o concebeu e edificou” – salientou, também, o presidente da Muralha.
De facto, “o fascínio do Café Oriental atravessa gerações” e faz com que “quem nunca o tenha visto tem saudades dele” – vincou.
Por ter “sobrevivido à nossa memória colectiva” o café é “uma espécie de vingança dos faraós e por ele estamos aqui hoje”.
Rui Victor Costa acredita que esta iniciativa da Muralha – Associação de Guimarães para a defesa do Património e da Sociedade Martins Sarmento é “um quebrar da monotonia cultural que se instalou na cidade”, prometendo contribuir para levar as pessoas aos museus e bibliotecas.
“Fazer da nossa memória uma determinação colectiva para o futuro de que somos capazes, pois, sempre o fomos.”
“Temos de olhar para o que conseguimos fazer e valorizar esse esforço, olhar para o que perdemos e pensar que nunca o deveríamos ter perdido. Fazer da nossa memória uma determinação colectiva para o futuro de que somos capazes, pois, sempre o fomos” – concluiu o presidente da Muralha.
Ricardo Araújo e Isabel Ferreira participaram na abertura desta exposição. O presidente da Câmara deu um sinal claro de que as duas instituições têm o reconhecimento municipal do seu trabalho.
Sobre o Café Oriental, afirmou que “ficou na memória de muitos” e tornou-se um ícone do “património imaterial que não pode ser esquecido”.
Pelo que contribui para a nossa “identidade colectiva” e pelo que representa para “a atracção de quem nos visita”, o património imaterial ganha expressão. Ricardo Araújo sublinha que “a nossa preocupação é contribuir para que os espaços culturais do Município sejam mais habitados”. E, sobretudo, se aproximem do seu público alvo e, em particular, dos vimaranenses.
Com a vereadora da Cultura presente, o presidente da Câmara falou de “uma dinâmica que envolva as pessoas na sua procura pelos espaços culturais, tornando-os mais abertos e disponíveis para o cidadão comum”. E desta forma dão utilidade ao trabalho “das instituições culturais que preservam a nossa memória”.
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