Pedro Sousa: “eu sei que vou preso”

Tido como o cérebro de Guimarães do gang do Uber, condenado a oito anos de prisão, aceitou falar ao Guimarães, agora! A versão do vilão para ler sem pestanejar.


Sete da manhã de uma sexta-feira 13, fria de Dezembro. Começava o dia que ainda era noite. Número 123 de Mataduços, a penúltima das 12 casas daquele corrente de habitação social é alvo de uma intervenção da Polícia Judiciária de Braga. Quase uma dezena de agentes encapuzados circundaram toda a área da habitação de Pedro Sousa, 23 anos, na ocasião. A porta foi arrombada. Pedro algemado e imobilizado como se de um criminoso violento se tratasse. A casa foi passada a pente fino. Nem as panelas escaparam. Os agentes da PJ pouparam apenas o quarto da mãe.

Da busca não resultou nenhuma apreensão, apenas o telemóvel do suspeito, uma prova crucial para a acusação.

Pedro Sousa, conhecido por “Pula” fazia parte do gang do Uber, um grupo que, entre Outubro e Novembro de 2019, foi acusado da prática de assaltos violentos a habitações no Minho e no Vale do Sousa. Pedro é para o Ministério Público o cérebro de Guimarães. Na convicção dos procuradores foi ele quem indicou as casas para roubar nos concelhos de Guimarães e Fafe.

Há uma semana, o Tribunal condenou-o a uma pena de oito anos de prisão da qual já recorreu.

Pedro Pula, o vimaranense de 24 anos, aceitou falar com Guimarães, agora! e, numa conversa franca e emotiva, contar a sua versão.

PJ arrombou a porta e algemou-o

Aquando da diligência à sua habitação, os agentes fizeram-se acompanhar de um mandado de prisão. Perante os soluços da mãe, foi desalgemado, porque afinal não era assim tão perigoso, e levado com a promessa de que voltaria.

Não voltou. Pelo menos, nos dias que se seguiram.

Pedro e os restantes elementos do gang passaram dois dias, juntos, nos calabouços da PJ de Braga, até serem presentes a juiz e conhecerem as medidas de coação.

“Tive muita sorte com o advogado que me nomearam e que nunca desistiu de me defender. Ele foi muito claro a primeira vez que falou comigo. Disse-me que estava tramado, que a polícia tinha tudo e restava-me colaborar com as autoridades. Reconhecer e arrepender-me”, relembra.

Contrariamente aos outros elementos, o vimaranense foi o único que admitiu os crimes. “Viraram-se contra mim. Na cabeça deles se negássemos a polícia não tinha nada para nos incriminar”, conta.

O juiz optou pela medida mais gravosa e todos os acusados ficaram em prisão preventiva.

António Marques Neto, um reputado advogado de Vizela, conseguiu que ao fim do primeiro mês Pula viesse para prisão domiciliária com pulseira electrónica. De todo os elementos, era o único que não tinha antecedentes criminais e o único que mostrou arrependimento e uma postura colaborante.

Está há um ano e quatro meses em prisão domiciliária.

“É claro que é bem melhor estar em casa. Tenho a minha mãe, as minhas coisas, os meus amigos apoiam-me, mas nas horas em que estou sozinho não paro de pensar que estraguei a minha vida. Eu sei que vou preso”, reconhece.

Pedro foi condenado a oito anos de prisão. A expectativa é que o Supremo reduza a pena em dois anos. Como já cumpriu mais de um, admitindo bom comportamento, poderia encurtar a pena para um terço.

“Acusação de ameaça a criança é mentira”

“Gang violento espalha terror”; “usavam armas de fogo ou facas para ameaçar de morte as vítimas e obrigá-las a entregar todo o dinheiro e ouro”. Foram estes alguns dos títulos que fizeram as manchetes na ocasião.

O facto de se deslocarem num Uber foi determinante para a investigação da PJ que durou pouco mais de três meses.

Após um assalto realizado à habitação de um agente da PSP em Fafe que conseguiu decifrar a matrícula, facilmente a polícia lhes seguiu o rasto através do sinal de GPS. “Tinham imagens de tudo, em flagrante, não havia como negar”, admite Pedro.

Ainda assim, nem tudo o que se escreveu corresponde à verdade. A acusação que terá apontado uma arma a uma criança de oito anos na residência do tal agente de Fafe, “é mentira! Nunca aconteceu”, garante.

Pedro nega também que foi ele quem indicou as casas a assaltar no concelho de Guimarães, “durante o dia saíamos e as casas que escolhíamos para assaltar à noite eram sempre ao calhas. Nunca indiquei nenhuma. Assim como nunca entrei em nenhuma delas. Sei perfeitamente que tanto é ladrão quem vai à horta como quem fica à porta, mas eu fiquei sempre à porta”.

Infância de violência doméstica e uma passagem por um Centro Educativo

D. Maria, cozinheira desde que abandonou a escola na quarta classe, 48 anos, analfabeta, entrou em casa atarefada e carregada com sacos de supermercado. Nunca faltou nada ao filho Pedro, não será agora. “Todos os dias comia no restaurante onde eu trabalhava e todos os dias lhe dava uma nota. Colocou-se nesta situação porque quis”, refere em comoção. Pedro baixa a cabeça.

D. Maria, o colo do filho quando os amigos batem com a porta foi a mesma que foi agredida pelo marido anos a fio, inclusive grávida da filha mais nova.

“Ia para a escola às 8 horas da manhã e já tinha visto a minha mãe levar porrada do meu pai”, conta em revolta Pedro Pula. “Tive de ser eu com pouco mais de 10 anos a enfrentar o meu pai e pô-lo na rua. A minha mãe, como a maioria das vítimas, negava”.

Como consequência do contexto familiar Pedro foi referenciado pela CPCJ e retirado à mãe com 14 anos. Institucionalizado em Revelhe no concelho de Fafe, optou por fugir e dedicar-se a pequenos roubos como “telemóveis, compras, quantias de dinheiro”. Presente a juiz, como era menor, foi colocado num Centro Educativo, primeiro em Caxias, depois na Lapa. “É uma prisão para menores e pela minha experiência bem pior do que a cadeia onde tens playstation, telemóvel… os Centros Educativos têm um regime tão rigoroso que a palavra que o descreve é: posso? Tens de dizer posso para tudo. Andas em fila e não te podes desviar um milímetro. Entendem que é assim que ensinam as crianças”, esclarece.

No Centro Educativo onde passou dois anos da sua vida, Pedro Pula conheceu os outros elementos do gang, actualmente com idades entre os 24 e os 33 anos residentes no Porto e em Vila Nova de Gaia.

Quando saiu fez um curso de jardinagem e de electricidade. Apaixonou-se. Começou a namorar e conseguiu um trabalho fixo. Desapaixonou-se e perdeu o emprego. Com 24 anos ainda vive com pressa e os acontecimentos sucedem-se em catadupa.

Recebeu um telefonema de um dos miúdos com quem se tinha relacionado no Centro Educativo. Queriam revê-lo; beber um copo. No momento seguinte, à pressa, Pedro já estava no comboio a caminho do Porto. “Fui ter com eles para matar saudades, já não os via há muito, mas quando lá cheguei aliciaram-me com dinheiro. Estavam cheios de dinheiro e propuseram-me fazer os assaltos em Guimarães. Tentado pelo dinheiro aceitei”.

Rapidamente, os amigos do alheio à boleia do Uber, começaram o homejacking em Guimarães. Dizem as notícias que os assaltos renderam cerca de 65 mil euros. Pedro confessa que amealhou algum. Do dinheiro? Não há rasto. “Gastei tudo”.

Diz-se “influenciável”. Refere o dinheiro como um ponto fraco. Teve pouca escola e o que aprendeu, onde era suposto ser educado, só o desensinou.

Nos últimos quase 18 meses da sua vida fez-se mestre no preço da liberdade. E todos os dias faz contas à sua privação.

O Pedrinho, dos sentimentos, que se encolhe na mãe e baixa a cabeça às suas reprimendas, chora. E tão depressa jura arrependimento como num compromisso solene assegura que jamais voltará à criminalidade, “nunca mais na minha vida me vou meter no que não devo. Estou muito arrependido. Por isso disse sempre a verdade à polícia e colaborei com eles. Toda a gente merece uma segunda oportunidade, eu aprendi a lição. Mesmo reconhecendo que errei, eu nunca entrei numa casa, nunca ameacei ninguém, fiquei sempre cá fora. Nas prisões só se aprende a ser uma pessoa pior. Se não tivesse passado por um Centro Educativo nunca teria conhecido aquelas pessoas. Cá fora posso trabalhar e ser um contribuinte”, planeia quase como uma miragem.

Pedro, ainda, sonha, em tirar uma licenciatura em desporto.

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