Paulo César Gonçalves
Nasceu em Guimarães, voltado para o Castelo da Fundação, e, até ver, está vivo.

Ecos de uma Capital Europeia da Cultura: 10 anos depois

Acho que já toda a gente, ou quase toda a gente, percebeu que fiz parte da equipa que organizou a cerimónia de abertura de “Guimarães, 2012, Capital Europeia da Cultura”. Estive noutros projectos, nesse mesmo ano, mas a abertura foi um episódio único, por tudo.

Sei, ainda hoje, passados que estão 10 exactos anos, aquela cerimónia de trás para a frente, da frente para trás, som por som, nota por nota, sequência por sequência.

Foi um triunfo indescritível dos vimaranenses, porque esteve em risco de não se realizar, mas os custos, para muitos, foram insuportáveis.

Ninguém, a não ser quem por lá andou, imagina as peripécias. E eu andei mais tempo do que a grande maioria, portanto, vi e vivi muita coisa, durante quase 11 meses. Há páginas da Capital Europeia da Cultura que ainda não foram escritas, e a verdade é que a realidade é muito mais complexa do que se possa pensar: sim, foi um triunfo indescritível dos vimaranenses, porque esteve em risco de não se realizar, mas os custos, para muitos, foram insuportáveis. Há sempre mais do que um lado para qualquer narrativa.

A Capital Europeia da Cultura abriu-me portas, umas boas, outras que eu preferia ter evitado. Houve muito espertalhão que, à míngua de “botar figura”, quis apanhar o comboio da “cultura”, e a esse propósito, aproveito para citar a minha amiga, a Drª. Francisca Abreu, que costumava catalogar essa espécie como “os voluntariosos, os jeitosos: desses é que tenho medo”.

A verdade é que a responsabilidade disso é só de uma pessoa: do Paulo César. Não há culpados. Houve eu. A confiança é que não volta.

Vejo a Capital Europeia da Cultura como uma extraordinária oportunidade, mas à qual, à distância de uma década, falta cumprir parte dos seus desígnios. “Guimarães, 2012, Capital Europeia da Cultura” foi uma celebração da comunidade, salva pela comunidade. É à comunidade que a efeméride, e a forma como pode ser celebrada, precisa de ser oferecida: temos praças de sobra para isso. Na cidade, nas vilas, nas freguesias. A comunidade precisa, a comunidade merece ser envolvida e escutada.

Foi a envolvência dos vimaranenses, como já referi, que “salvou” o certame, depois de todas as peripécias iniciais que quase colocaram em risco a sua realização. A frase “tu fazes parte” foi muito bem escolhida. Acredito que a cidade ficou mais exposta. E acredito que temos um papel a desempenhar e a defender. Sem parentes “pobres”, note-se. É preciso equiparar e equivaler. Dar condições.

É pena que parte substancial da oferta cultural da cidade não aponte aos vimaranenses em geral, mas a nichos. Sinto que o Município tem dado provas em contrário, mas também sinto, ao mesmo tempo, que os palcos das estruturas culturais, ou as “montras”, negligenciam os criadores locais.

Atenção, eu não acredito em auto-suficiência, e acho que podemos e é preciso estarmos abertos ao que é exterior, apontar para lá, trazer até cá, mas isso não significa, pura e simplesmente, não poder oferecer a possibilidades de voar a alguém.

Façamos parte, os que quiserem. Haja envolvência. E, sobretudo, que se valorize quem cria: a cultura não é mais do que a manifestação do nosso quotidiano. Não se encerra na arte, nem em cima do palco. Pode sê-lo, também, enquanto mimética de uma determinada forma de viver, mas para encontrá-la basta colocar os dois pés na rua. E chegar ao outro.

NOTA: este texto é dedicado à equipa da abertura, e a toda a gente que tornou a CEC possível.

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