Daniela Cardoso
Arqueóloga, Conservadora Restauradora, Investigadora, dirigente associativa e especializada na área da Pré-história - Arte Rupestre pós-Paleolítica do Noroeste de Portugal. É Doutorada pela Universidade de Trás os Montes e Alto Douro onde defendeu a sua tese de doutoramento sobre a arte atlântica do Monte de S. Romão (Guimarães) e é autora de inúmeras publicações a nível nacional e internacional. Ainda como investigadora participou em diversos projetos relacionados com Arqueologia, Turismo e Património.

Arte rupestre: que mistério encerram as pedras gravadas?

As gravuras rupestres são testemunhos das vivências dos nossos antepassados, carregam milhares de anos de história e devem ser acarinhadas e preservadas por serem um legado importantíssimo que nos permite, hoje, ter acesso a alguma informação, sobre uma época em que o Homem não tinha o conhecimento da escrita. Almejamos saber o significado de que cada um dos símbolos gravados, mas não possuímos um código que nos garanta uma leitura precisa e eficaz.

Apenas conseguimos intuir como tudo se passou através do estudo dos motivos, do contexto onde se encontram inseridos, das ferramentas e das técnicas utilizadas para a gravação e constatar a enorme evolução das sociedades ao longo dos tempos.

O que temos como mais certo é que, na nossa região, o Homem pré-histórico escolheu como suporte de gravação superfícies graníticas que encontravam na natureza. E que foram esses afloramentos graníticos gravados que, no séc. XIX, o arqueólogo Martins Sarmento, ao calcorrear os montes de S. Romão e do Coto do Sabroso encontrou e registou nos seus cadernos de campo.

Nesse mesmo território e volvido mais de um século, a Sociedade Martins Sarmento em colaboração com o Dep. de História da Univ. do Minho, realizou uma campanha arqueológica, entre os dias 1 e 15 de setembro, com o objetivo de descobrir algumas das gravuras rupestres registadas nos diários de campo de Sarmento e dar continuidade aos trabalhos iniciados por Daniela Cardoso no âmbito da sua tese de doutoramento “A Arte Atlântica do Monte de S. Romão (Guimarães) no Contexto da Arte Rupestre Pós-paleolítica da Bacia do Ave – Noroeste Português”.

A campanha arqueológica, dirigida pela Prof. Doutora Ana M.S. Bettencourt, em colaboração com a Doutora Daniela Cardoso contou com a presença de 5 alunos do Mestrado em Arqueologia. Descobriram 12 novos sítios com gravuras rupestres nas vertentes sudeste e sudoeste do Monte do Coto de Sabroso, nas áreas do Castro de Sabroso e Citânia de Briteiros. Nenhum deles coincide com os desenhos de Sarmento, pelo que a quantidade de gravuras rupestres nestes montes será superior ao que se pensava.

Estas manifestações rupestres inserem-se em distintas cronologias demonstrando que a tradição de gravar nos afloramentos é milenar…

As gravuras rupestres agora descobertas revelaram um reportório iconográfico de grande diversidade e originalidade, como é caso de representações de equídeos e de um serpentiforme bem como arte atlântica, com distintos motivos circulares, onde se inclui um labirintiforme, além de gravuras de simbologia cristã. Estas manifestações rupestres inserem-se em distintas cronologias demonstrando que a tradição de gravar nos afloramentos é milenar.

Tendo por base métodos comparativos de datação, é possível admitir que as gravuras mais antigas e abstractas (arte atlântica) terão sido realizadas no 4º e 3ª milénios a.C. (Neolítico e Calcolítico) em parte contemporâneas dos dólmenes, enquanto os equídeos poderão ter sido gravados pelas comunidades que viveram nos povoados de Briteiros e Sabroso (1º milénio a.C). Já as gravuras de simbologia cristã poderão incluir-se na época medieval ou moderna, na medida em que marcam caminhos antigos.

O trabalho de investigação desenvolvido em 2020 vem lembrar que urge proteger e valorizar a arte rupestre de Guimarães pois ela é um precioso testemunho do passado da região.

© 2020 Guimarães, agora!

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bem. Excelente. Parabéns. Sugestão: Visitar museu das trilobites em Canelas, Arouca. Também visitar as Pedras Parideiras na serra da Freita. Terminar com visita a Paradinha.

  2. Parabéns à SMS e à Doutora Daniela Cardoso, a sua arqueóloga especialista.
    Conhecer o passado é essencial para dar valor ao presente.
    Este achado vem a ser continuidade da sua tese doutoral. É preciso mais: pelos vistos os cadernos de MS podem ser completados. Tarefa hercúlea espera o futuro da ciência em Guimarães.

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