Ricardo Costa
Vereador da Câmara Municipal de Guimarães, responsável pelo Departamento Financeiro, Financiamentos, Sistemas de Informação e ainda coordenação do Desenvolvimento Económico. Licenciado em Filosofia e Desenvolvimento de Empresas, é especialista em Finanças e Fiscalidade e tem uma MBA em Direcção Geral de Empresas.

A oportunidade do I9G produzir um choque económico

O actual estado sanitário do mundo, em geral, e do nosso cantinho português e europeu, em particular, – provocado pelo impacto do vírus mau – coloca-nos perante dilemas e desafios, que exigem respostas urgentes.

Mas essas respostas não podem ser paliativos nem pontuais – que nos acalmem somente as dores; têm de ser prospectivas – que nos salvaguardem a saúde para o futuro; e percursoras de uma nova era económica, ou se quiseram de um novo mundo, toldado que foi pelo impacto da pandemia que nos deixou abalados duplamente, pelos golpes infligidos na nossa moral e na nossa economia.

Em causa, está a Europa e a zona Euro e por arrasto o nosso país e a nossa região. A Europa – da qual fazemos parte de corpo inteiro – foi colocada num turbilhão de riscos, bem diferentes dos registados em 2011 quando foi preciso fazer tudo para proteger a moeda única.

Hoje, a Europa volta a ser confrontada com a necessidade de ter uma resposta abrangente para diversos problemas, urgentes: a saúde dos seus cidadãos, e a manutenção das empresas e do emprego – incluindo a protecção dos que vão ficar no desemprego e no processo de relançamento da economia, quando ela ocorrer. É para este cenário de tormenta que precisamos de soluções ao nível da comunidade dos 27, do país mas também ao nível regional e local.

Os cidadãos esperam de quem tem responsabilidades na governação – seja ela de que tipo for – que apresentemos as melhores soluções para a catadupa de problemas que vamos enfrentar.

De um ponto de vista tradicional, o financiamento é uma solução para o curto prazo, um monte de sacos de areia, porventura, com os quais queremos tapar o rombo e a brecha do dique que ameaça inundar as nossas coisas e o nosso lar.

Mas não pode ser a única solução para mudar o que restará dos estragos feitos por esta crise sanitária que afectou muito a nossa moral mas também os nossos recursos e o nosso modo de viver.

“Só com soluções inovadoras podemos resolver os estragos desta crise, de modo a revitalizar, renovar e reformar a economia…”

Do ponto de vista do futuro, de buscar um novo devir, só com soluções inovadoras podemos resolver os estragos desta crise, de modo a revitalizar, renovar e reformar a economia, torná-la mais forte e resistente a eventuais e naturais ciclos de crescimento e de recessão.

No financiamento que a UE assegurará a todos os países com instrumentos a criar ou já existentes – os Eurobonds (hoje chamados de Coronabonds) ou com o actual recurso ao Mecanismo de Estabilidade Europeu, importa ter soluções que apoiem mais fortemente a micro-economia regional e local, uma realidade que deve ser coberta por um chapéu adequado.

Contudo, há que ir mais além, e levar a Bruxelas a ideia de que os financiamentos reembolsáveis – e a burocracia para deles beneficiar – só podem baixar a febre do doente. O que as empresas precisam é de apoios efectivos e extraordinários, recursos com os quais têm de viver nos próximos seis meses sem se preocuparem em pagá-los. Ou seja, a UE devia assumir estes apoios, em função do PIB de cada país, a bem da macro-economia. E as moratórias de seis meses, para todos os empréstimos empresariais e particulares, seriam o primeiro passo.
Doutro modo, daqui a seis meses as empresas ficarão sem ar para sobreviver, o desemprego poderá chegar a taxas impensáveis, e a retoma pós Covid-19 pode não encontrar as empresas saudáveis e capazes de repor a normalidade de Janeiro 2020. Tudo ficará em xeque; a Segurança Social, as finanças do país, a economia, as empresas, os trabalhadores e todos os cidadãos e as exportações.

Guilherme Pereira vice-reitor da Universidade do Minho. © Direitos Reservados

Em 2018, em nome da Câmara Municipal de Guimarães – com a Universidade do Minho e a Bosch – promovemos a elaboração de um projecto – I9G – de inovação para a indústria, com vectores estratégicos fundamentais para a economia do concelho, com aplicabilidade na região e no país.

José Oliveira (Bosch) participou na elaboração do I9G. © Direitos Reservados

Esse projecto foi apresentado ao Ministro da Economia e verificamos que, agora, ainda tem mais sentido que se concretize, por ele poder dar resposta aos problemas que vão advir do Coronavírus e que se vão acentuar na economia da região e de Guimarães.

Ou seja, as empresas serão confrontadas não apenas com os despedimentos, sem possibilidades de substituir mão de obra, que cada vez se quer com mais conhecimentos e maior formação profissional.

Esta é, pois, uma fase crucial para as empresas e centros de conhecimento, porventura, com uma coordenação regional ao nível das Comunidades Intermunicipais – CIM’s – ou áreas metropolitanas – que podendo aceder ao pacote de fundos comunitários do PORTUGAL 2020 e ainda não utilizados nem esgotados, sejam aproveitados para garantir a manutenção e a pujança económica do Distrito e de cada concelho das CIM’s do Ave e Cávado.

O efeito multiplicador desta operação e deste projecto na economia teria enorme impacto do ponto de vista macro e micro-económico, de justa distribuição de recursos e de justiça social, no contexto geográfico, mantendo a nossa economia activa, sem perdas enormes quer no universo empresarial – em número e qualidade – e no emprego – na manutenção dos postos de trabalho e na formação de activos em todas as áreas e sectores da economia, género e idades.

“O I9G pode ter o efeito de um choque económico que evite situações idênticas às que esta região viveu no passado…”

A meu ver – e foi também o que presidiu à elaboração do I9G – o antídoto local para uma crise que se advinha de risco forte, o I9G pode ter o efeito de um choque económico que evite situações idênticas às que esta região viveu no passado.

Depois do esforço feito pelo governo na recuperação da economia, do enorme empenho de empresários e trabalhadores na recuperação do país, dos inúmeros sacrifícios que afectaram as famílias portuguesas, da recuperação de rendimentos, e da elevação da nossa estima social e cidadã, não podemos, por inércia, pôr tudo em causa, deixando cair todo o potencial económico, social e científico desta região que soube conquistar, a pulso, uma vida melhor e garantir uma paz social e felicidade, conquistadas com trabalho.

É nas ameaças que encontramos oportunidades.

Nos contactos que tenho mantido com inúmeros empresários, nos últimos dias, tomei nota das suas apreensões. E interpretando e comungando do seu desejo de continuar a lutar pelas suas empresas e pela manutenção da sua força de trabalho – é que me propus fazer eco dessas preocupações, sentimentos e mesmo esperanças.

E fi-lo e faço-o, naturalmente, compreendendo quão ingrato é este momento, quão necessário é garantir a nossa unidade e a nossa força, de modo a que dobremos o Cabo da Boa Esperança, de novo, a caminho de um país forte e seguro, de uma Europa unida e de uma região fortalecida.

Porque importa manter o país vivo – e esta região e Guimarães também – e porque o Mundo não acabará hoje, enderecei ao Senhor Primeiro Ministro, Dr. António Costa, uma mensagem pessoal para que abrace, também, este projecto do I9G, como projecto estruturante – por responder às necessidades do tecido empresarial e economia regional -, como um complemento às medidas nacionais já adoptadas e uma resposta estruturada para as dificuldades da região que não podem ser agravadas por esta crise.

© 2020 Guimarães, agora!

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