O conveniente nunca é verdadeiro!

Homens de letras e políticos ajudam ao espectáculo televisivo.

Na vida social e política, todos preferem fazer o que é conveniente mesmo não sendo verdadeiros. No desporto, também passou a ser assim, depois do incidente de Marega com os adeptos vitorianos. O politicamente correcto tem as características da estupidez manifestada por gente que vai ao futebol para chamar nomes a jogadores (incluindo os da própria equipa), dirigentes e árbitros, como bem referiu Pinto da Costa.

De facto, todos assobiam para o lado, quando em situação de crise, não sabem o que fazer, nem o que dizer. Num verdadeiro desfile do “Maria vai com as outras”, não há ninguém que contrarie o chorrilho de asneiras que se produzem a propósito de uma determinada “tragédia” social ou desportiva.
Como é fácil, estar do lado da vítima, todos se tornam popularuchos e não populares, alardeando o populismo que dizem combater. A sua cara (deles) diz tudo: a hipocrisia toma conta do seu discurso conveniente, alguns fazem fila para condenar o que não é, de todo, óbvio, e lembrando pecados antigos, todos querem agora aparecer a maltratar os adeptos vitorianos, que num lapso de tempo, decidiram castigar Marega, com grunhos que são uma imitação rasca do “falar” dos macacos que todos adoramos e que no jardim zoológico não deixamos de mostrar às crianças (filhos deles), provando que o dito macaco até é um animal simpático e querido mas que travestido de humano, é coisa que se repele e não se recomenda.

O grande exército de moralistas, homens de letras e opinião makers, políticos, homens ditos de Estado, também fizeram o óbvio, julgando sem ver, apenas porque o vizinho do lado lhes contou a história que parece ter ouvido lá no estádio. Ou o que o polícia que estava no exterior ouviu, alto e bom som, quando muita gente que assistia ao jogo, nem noção teve de alguns apupos habituais antes, durante e depois do jogo de futebol. Incluindo o próprio árbitro – não aplicou as regras da UEFA que mandam suspender e depois parar o jogo, em casos destes, logo não houve “crime” ou sanção.
Afinal, todos queriam apreciar o espectáculo Marega, um artista que a solo, fez um chinfrim do caraças, obrigando o branco a falar de si. Como ele se deve ter rido, nessa noite, desta palhaçada radiofónica e televisiva.

O jogador diz que sofreu com as imitações rascas dos símios – que ao que parece não têm mesmo aquele grunhido – mas conseguiu dormir e rir-se da sua popularidade.
Mas não sofreu, o que os verdadeiros mártires do racismo – que “distinguiu” a América, em determinada época da nossa história – sofreram. Não sofreu ele, nem a sua família, nem os seus amigos como os que discriminados não podiam ir à escola, andar de autocarro ou ter lavabos públicos para fazerem as suas necessidades. Muito menos foi perseguido pelos que julga terem-no irritado com alguns sinais sonoros a imitar um animal que também é da nossa estimação social.

Não, a sua alma não foi ferida, a sua condição negro não foi ofendida. O Marega não estava em campo por ser um cidadão de raça diferente, estava ali porque era um jogador de futebol, que marcou um golo a uma equipa onde cresceu para o futebol, e cujos adeptos brindou com gestos punidos disciplinarmente em termos desportivos, salvo se os regulamentos não mudaram. Para além de ter parado o jogo para dar o seu show de cinco minutos.
Aos que me vão julgar por este texto e pelas ideias aqui defendidas e nas outras páginas apenas respondo: eu escrevo com as palavras certas e não inventadas, falsas ou convenientes. O que se viu é um fenómeno social do futebol, próprio da nossa cultura e da educação que a sociedade diz dar ao povo – que não é nenhuma porque não é baseada em valores mas em ficções.

Se dissessem que há adeptos mal educados, que sob o encanto e o manto do fervor clubístico se julgam mais vitorianos que todos os vitorianos, e que julgam defender o seu clube a acender tochas, berrar contra o árbitro e insultar as mães alheias, eu até estaria de acordo. Pior, é os nomes que se fazem ecoar sobre muitas mães honradas, trabalhadoras, que sofrem para educar os seus filhos, que minguam à falta de pão e leite, não têm casa para viver e que em cada jogo de futebol são insultadas pelo seu género e qualidade.

© 2020 Guimarães, agora!

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