O contexto em que se deu a explosão…

Marega espalhou o vírus.

O racismo, tal como a história o regista é, antes de mais, um conceito que exprime uma realidade social marcada pelo preconceito, assente na discriminação e na negação de direitos aos indivíduos de raça negra, que eram limitados na sua condição social pela cor da sua pele. E punidos por tal, na justiça!
Na retaguarda do racismo, está uma luta justa de inúmeros negros, bem formados, gente de uma enorme estirpe cultural que se ergueram contra uma abusiva e massiva segregação, das gentes da sua raça.
Hoje admiramos Martin Luther King e mais recentemente Nelson Mandela, só para falar de dois excelentes lutadores das causas das pessoas da sua raça que conquistaram a admiração e simpatia de milhões de brancos que se identificaram com a sua luta. E se identificam hoje mais com a igualdade entre cidadãos para além da cor ou da religião.

Os inúmeros negros que morreram por essa causa nobre da igualdade de cidadania e de igualdade de direitos, só um desses mártires vale mais que mil Marega’s juntos.
O seu sacrifício pela causa, a sua luta, o seu sofrimento não se compadecem com uns espirros fonéticos, gritados num qualquer campo de futebol, por adeptos já de si susceptíveis de berrarem contra tudo o que é adversário da sua equipa/clube e que se sentiram provocados por um festejo desrespeitoso de um jogador que estava para ser descartado pelo seu clube e que deu à costa do Vitória para se formar e enquadrar no futebol português sem que antes também fizesse das suas num jogo contra o Nacional da Madeira.
O Vitória jogava com o FC Porto num jogo que podia não ditar a vitória no campeonato dos portistas se o resultado fosse outro. Apesar das críticas, a equipa de Ivo Vieira apresentava-se num nível bom, tendo em conta o peso de mais jogos do que os habituais numa época em que às competições nacionais juntou uma competição europeia.

Mas a sorte do jogo haveria de estar com os portista que se adiantaram no marcador com um lance de manifesto azar: Douglas lançou-se a um remate que levou a bola à trave e a fez cair nas suas costas e na sua mão, entrando pela baliza dentro.
Nem assim, o Porto soube superiorizar-se apesar de dominar a partida. E já depois do intervalo, o Vitória chega à igualdade, num golo bonito, reavivando a partida e equilibrando o resultado.
Até que novamente o capricho do futebol, num passe longo de um médio portista, para o meio campo do Vitória, leva Frederico Venâncio no encalce da bola, com Marega a seu lado. A bola bate na relva e acidentalmente na perna do jogador do Vitória ficando à mercê do maliano que com a sua classe faz o 2-1 a favor dos portistas.

Os vitorianos sentiram este golpe, de má sorte, para logo se confrontarem com um festejo do golo, à revelia dos regulamentos – que não sendo crime é passível de sanção desportiva – transtornando os vitorianos que consideram o seu estádio como espaço único, ao jeito de “em nossa casa, mandamos nós”.
Não caiu o Carmo e a Trindade porque o jogo era em Guimarães e logo aí se manifestou a desavença entre Marega e os adeptos do Vitória, acossados que foram pela atitude menos nobre de um jogador que conhece bem a mentalidade dos vitorianos.
Num verdadeiro acto de repulsa e protesto pelo comportamento de Marega, a reacção não se fez tardar. E por gestos, assobios, berros e sabe-se lá que mais, incluindo sinais e imitações de gestos de um animal da selva, os adeptos do VSC irromperam num protesto que só podia ser interrompido se o Vitória, por exemplo, empatasse a partida.

© Marco Jacobeu

Para além do show de bola, Marega quis dar um show de mártir grosseiro, de menino birrento que não aguenta confrontos próprios do futebol e que muitos adeptos – seja de que clube for – praticam em circunstâncias idênticas. É claro que a mãe de Marega também foi visada, como são todas as mães dos jogadores.
Porém, o show artístico do jogador – que insultou todas as regras do futebol em si mesmo, dentro das quatro linhas, fez com que que o jogo fosse interrompido – também contra os regulamentos – andando em cenas de empurrões e de fica e não fica, sai e não sai, de bradar aos céus.
Marega virou mártir e herói, tornando-se numa vítima e percursor de uma nova era no futebol: a de que ao jogador de futebol é lícito e permitido usar do direito de manifestação, de indignação, de protesto e sabe-se lá mais o quê, de utilizar barreiras e chamar a polícia para que com canhões de água se combater os pobres dos adeptos que não deviam ter beliscado a natureza do indivíduo.

Foi assim que nasceu o vírus Marega, que rapidamente se espalhou pelas televisões, mobilizou comentadores, obrigou os analistas a horas extraordinárias, à utilização banal sem nexo e mesmo canibal da palavra “racismo” por causa de uma reacção que não tem nada a ver com as práticas e tácticas do Ku Klux Kan na América de outros tempos, não representou qualquer violência, nem limitação de direitos, a um jogador que quis ficar famoso por um acto – do qual não tem patente por não ser nem pioneira nem representar qualquer novidade.
De Domingo a Terça-feira e sabe-se lá por quanto tempo mais, Marega passa a herói de um jogo, a líder de uma causa em que está mesmo só, que não teve defesa policial porque o agente que viu “alto e bom som” os apupos, ditos animalescos, ficou no relvado, comodamente, sem agir. Para depois também se tornar numa testemunha vital, que escutou tudo – sem ver nada – e que não foi capaz de identificar qualquer malvado por entre os adeptos vitorianos, quais carrascos, de um incidente que só se vê no futebol.

© 2020 Guimarães, agora!

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