Em 1981: Carlos do Carmo cantou na véspera do Festival de Folclore

Carlos do Carmo não era apenas um lisboeta por nascimento, ele tornou-se num artista nacional que muito honrou Portugal.


Foi na noite, de um Sábado, de 1981, precisamente a 18 de Julho, que Carlos do Carmo veio a S. Torcato. Deu brilho ao espectáculo que, por regra, antecipava o Festival Internacional de Folclore que se realizaria na tarde do Domingo seguinte.

A sua escolha tinha por base uma forte e sustentada proposta, justificada no êxito que tinha sido o seu espectáculo no Olympia, de Paris, no ano anterior.

Naquela altura, tal como em outras edições, o Festival Folclórico Internacional de S. Torcato, era organizado por uma comissão com torcatenses que não faziam parte do Grupo Folclórico de S. Torcato, mas cujo dinamismo tornou o festival num espectáculo a não perder, quer na noite anterior quer no programa folclórico do dia seguinte. O Festival que ganhou fama no país e no mundo e serviu de estudo para prestigiadas revistas de danças e cultura da Europa, tornou-se num cartão de visita para turistas estrangeiros. 

Mesmo sete anos depois do 25 de Abril, havia quem, em S. Torcato, visse o cantor como um simpatizante do Partido Comunista e não como um artista de classe, porquanto a sua aceitação pela comissão não foi pacífica.

Como o que estava em causa, era o espectáculo na noite anterior ao festival, Carlos do Carmo não teve concorrentes porque era de facto o artista ideal para àquele fim e foi aceite pela maioria dos membros da comissão. Contudo, foi sujeito a uma segunda votação, por alguns membros da comissão entenderem que estar ligado ao PC era algo de anacrónico. Numa votação democrática, venceu a tese da maioria da comissão, tendo votado a favor Alberto Vieira, José da Silva Matos, José Eduardo Guimarães, e António da Costa Freitas. E contra Feliciano Oliveira, Fernando Lima e Francisco Amorim.

© GA!

A escolha de Carlos do Carmo haveria de se mostrar mais do que acertada, pois, o artista fez jus ao seu profissionalismo, encantou o público e ainda foi atracção para crianças.

Vejamos, o que escreveu a propósito, o correspondente de S. Torcato, do Notícias de Guimarães, na edição nº 2586 (página 2), de 24 de Julho de 1981:

“Carlos do Carmo foi sem dúvida a atracção da noite de Sábado e com a sua classe e profissionalismo interpretou os seus números, alguns dos quais amplamente participados pelos espectadores presentes, incluindo a camada infantil que vibrou, em palco com a audição e participação na canção “Os putos”. Os refrões de outras canções, foram, também, vibrantemente entoados pela assistência que fez juz em participar no programa”.

Carlos do Carmo actuou em S. Torcato com um cachet de 50 contos (250 euros), numa noite memorável também para o conjunto musical “Frates”, de Ronfe, que com canções de rock abriu e fechou aquela noite, memorável para muitos que tiveram oportunidade de a presenciar.

Uma nota pessoal, fica aqui registada: Enquanto membro da comissão do Festival e proponente e defensor da proposta, com José Matos, para fazer de Carlos do Carmo, a atracção da noite, senti o prazer de uma conversa muito pessoal com o cantor e artista, num diálogo aberto e tolerante. Foi no caminho para a Fonte do Santo, onde a crença popular aceita que ali foi encontrado o corpo do Santo Mártir. Antes do espectáculo, e durante uma boa parte da tarde, Carlos do Carmo não hesitou em visitar o Mosteiro, ir à pé à Fonte do Santo, e voltar, ouvindo e falando, como um cidadão normal, sem guarda costas, apenas com os músicos que o ajudavam na altura e pouco mais. Fiquei fã do artista, admirei e respeitei o homem nas suas crenças e convicções.

José Eduardo Guimarães

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