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Terça-feira, Julho 23, 2024

24 de Junho: “Fazer parte do futuro é a única escolha” afirmou Domingos Bragança

Economia

Foi o discurso mais filosófico dos seus mandatos; também o que mais exaltou o poder colectivo (a que aspiramos) em Guimarães ao mesmo tempo que destaca o papel crucial de heróis e líderes.

Domingos Bragança inspirou-se em três filósofos, e citou-os: Rousseau, Daniel Innerarity e Byung-Chul Han e um pensador político – Alexis de Tocqueville.

O seu discurso tem sete “mandamentos” que o tornam numa boa peça de leitura mas que tem um defeito – o de se adequar mais a um início de mandato do que propriamente ao fim de um ciclo político de 12 anos de liderança municipal. Então, em 2013, seria motivador e definidor e teria mobilizado Guimarães com uma liderança forte.

Reflecte, também, a sua leitura sobre o passado português, na época em que Portugal nasceu. E a qual tentou confrontar com a realidade vimaranense.

Curiosamente, o ainda presidente da Câmara despede-se do papel de ‘Rei’ que assumiu na governação municipal para se afirmar no líder democrático com fé – muita – “no poder colectivo a que aspiramos em Guimarães”.

Introduziu ainda no seu discurso, uma simples frase – o Bem Comum – que o liga ao legado… de uma cidade mais próspera, “ancorados em projectos de longo prazo, de alcance inter-geracional que resultem de um entendimento sobre que caminho queremos percorrer e que só ciclos de governação longa permitem”.

E entre vivas a Portugal, ao 24 de Junho, meteu no meio um “viva Guimarães e viva a força do seu colectivo”.

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O papel crucial de heróis e líderes

O presidente da Câmara Municipal – naquele que não será, ainda, o seu último 24 de Junho que comemora nessa qualidade – começou o seu discurso com uma interrogação: “o que existirá de comum entre o papel do indivíduo e do colectivo nas batalhas que foi preciso travar para que pudesse nascer um país?”

E recuando na história, explica que as batalhas e os conflitos históricos, outrora travados evidenciam “o papel crucial de heróis e líderes”, reconhecendo, porém, que “o sucesso que viria a constituir aquela que chamamos A Primeira Tarde Portuguesa”, resultou de “uma acção conjunta, de uma soma de vontades em prol de um objectivo comum: o de alcançar a independência e soberania”.

Lembrou que “o país que comemoramos, feito de valorosos homens e mulheres, foi o resultado dessa acção conjunta liderada por Afonso  Henriques…” Defendeu que “ele, o Infante, soube merecer a confiança do seu exército”, tornado possível, “com audácia e coragem fazer nascer uma Nação”.

Contudo, para lá do papel do indivíduo e do colectivo, Bragança sustenta que “o 24 de Junho de 1128 foi um momento de superação colectiva e de vontade de mudança, um ponto de partida claro e inequívoco, que nos coloca hoje no lugar que é pilar da fundação de Portugal”.

A data que hoje celebramos, como marco fundamental na nossa história, é um orgulho que partilhamos e que queremos que seja celebrado em todo o país, como o Dia UM de Portugal

Levando em conta a coroação de Afonso Henriques, Bragança defende que a partir daí a história militar e política mudou e moldou a estrutura das forças armadas.

E assim relaciona “a história do Exército português directamente ligada à história de Portugal”. Volta a evocar o papel do Exército no 25 de Abril de 1974 e recordando Salgueiro Maia sustenta que “na nossa história, mais uma vez, o papel do indivíduo foi decisivo”.

Nos dois casos, Afonso Henriques e Salgueiro Maia, foram arautos da liberdade, e no primeiro caso até nasceu um país, fruto da bravura de heróis e das tropas que comandaram.

Fernando Alexandre, Ministro da Educação representou o Governo. © GA!

“…importa tomar consciência de que o destino de um povo pode mudar numa batalha e o de um país numa revolução

Mais do que analisar uma batalha que marcou decisivamente o destino de um povo ou de estudar uma revolução que marcou decisivamente o destino de um país, Bragança faz o exercício de “superar o incomensurável” para o qual “é necessária força e determinação inabaláveis…” e recorre a Rousseau para mostrar o que “há de diferente entre a vontade de todos – a soma de vontades individuais – e a vontade geral – que resulta das acções de cada um de nós”.

O futuro das comunidades, cidades e territórios não pode prescindir desta singularidade: a de que “o indivíduo, com o seu empenho, talento e conhecimento, desempenha um papel essencial na construção do futuro colectivo”.

Por isso, considerou que “o Bem Comum” é um conceito “irrenunciável” nos que têm responsabilidades políticas e que a vontade de satisfazer apenas os seus próprios interesses, colocam em causa.

O nosso Bem Comum, o de Guimarães está ao alcance do poder colectivo a que aspiramos

Só com critérios de racionalidade, “ancorados em projectos de longo prazo, de alcance inter-geracional que resultem de um entendimento sobre que caminho queremos percorrer e que só ciclos de governação longa permitem”, é que “os sistemas democráticos devem saber vencer, no presente, o seu exclusivismo temporal e não deixarem que a tirania das pequenas decisões hipoteque o futuro colectivo”.

Neste caso citou o catedrático e filósofo espanhol e basco Daniel Innerarity (O Novo Espaço Público) para escrever uma página de conduta de “quem se serve da semântica do bem comum terá de deixar-se medir por ele, deve estar em condições de justificar publicamente em que medida o seu comportamento satisfaz esse princípio”.

Uma seta dirigida aos políticos locais que correm desenfreadamente para a conquista do poder municipal.

Domingos Bragança defendeu a coesão e a força colectiva de Guimarães para o futuro. © GA!

O poder colectivo a que aspiramos em Guimarães”…

É com esta afirmação que Domingos Bragança começa frases sucessivas, no que é o capítulo do seu discurso mais desenvolvido. É claro nos alvos a quem se dirige:

“O poder colectivo a que aspiramos em Guimarães…

…é fruto do trabalho desenvolvido pela estrutura de Missão Guimarães 2030… com responsabilidade partilhada entre elementos técnicos, científicos e políticos… que permite-nos figurar entre as 100 cidades que servirão de referência e de farol no caminho rumo à neutralidade climática da Europa…

…coloca-nos na rampa de lançamento para o que se denomina de Nova Economia do Espaço e para o qual são fundamentais os cursos de Engenharia Aero-espacial e Ciência de Dados da Universidade do Minho, o Guimarães Space Hub, pólo tecnológico para a cooperação no sector do espaço, nas vertentes empresarial, ensino e investigação, e o supercomputador Deucalion, da Rede Europeia de Alta Computação…

…torna possível o desenvolvimento de um novo urbanismo mais eficiente e sustentável, para o qual os contratos de planeamento, com vista ao aumento da área de construção industrial e urbana, que resultam da articulação entre o investimento privado e a estratégia municipal, são um importante passo… numa cooperação inteligente com vista ao bem comum…

…permite-nos pensar no futuro da mobilidade, na ligação à futura estação de Alta Velocidade, na interligação dos sistemas de transporte do Quadrilátero Urbano, na transição digital e económica, na reconversão e formação de recursos humanos que a futura Academia de Transformação Digital permitirá…

…e permite-nos olhar para a Saúde com olhos de quem vê no diagnóstico pré-hospitalar o caminho para um território mais saudável, investindo nos centros de saúde de nova geração…

…ou olhar para a biotecnologia, para a medicina regenerativa como oportunidade de diversificação e crescimento ou para afirmar o nosso território num área emergente e de grande valor acrescentado…”

“Esta nossa aspiração, a de Guimarães… permite-nos pensar o território como um lugar mais acolhedor e humano, onde a qualidade de vida e o bem-estar são prioridades… com expansão de áreas pedonais, criamos espaços públicos que promovem o encontro e a convivência… é o que faremos em todo o concelho e no centro da cidade.”

Saudando o Ministro da Educação, o presidente da Câmara mostrou Guimarães como “uma cidade que considera a Educação e o Conhecimento, a par da Cultura, como pilares fundamentais de desenvolvimento do território”. E como essas áreas “nos conduzem a um maior respeito pelos demais, a uma melhor compreensão de quem somos, como somos e desejamos ser”.

Também a Educação, Conhecimento e Cultura “nos empoderam, nos qualificam, nos proporcionam mais e melhor conhecimento, fundamental para o equilíbrio que pretendemos estabelecer entre uma forte consciência ecológica e um crescimento do tecido económico, cada vez mais inovador, gerador de riqueza e de bem-estar social”.

“…a importância de cada um de nós na construção de uma sociedade mais coesa, solidária, próspera e justa…”

Domingos Bragança recorreu ao francês Alexis de Tocqueville e ao seu pensamento político para falar das democracias e as dinâmicas sociais e políticas. Ainda que aparentemente abstractas, o presidente da Câmara tinha em vista Guimarães onde também se “sentem os perigos de um crescente individualismo que ameaça um futuro mais partilhado e mais promissor”.

Não foi em vão que leu o que Tocqueville escreveu, escolhendo o que melhor se adaptava à conjuntura política local e do seu partido. “Cada pessoa mergulhada em si mesma, comporta-se como se fora estranha ao destino de todas as demais. Os seus filhos e os seus amigos constituem para essa pessoa a totalidade da espécie humana”. E esses, apesar de viverem com “um certo sentido de família ainda a permanecer na sua mente, já não lhe resta qualquer sentido de sociedade”.

E dá exemplos de que quando se cultiva “um espírito e objectivos colectivos e uma visão compartilhada, os indivíduos sentem que fazem parte de algo maior, de algo que vale a pena lutar”. E é este propósito que “funde indivíduo e colectivo, fortalece o sentimento de pertença vimaranense e a sua forte identidade comunitária e constrói uma sociedade melhor”.

Neste contexto, o presidente da Câmara acredita que em Guimarães “pode ainda fazer-se ainda melhor” o que revela alguma humildade no cargo que exerce, mas não deixa de referir que esse melhor só se pode conseguir se “reunir um conjunto de vontades que, não olhando a interesses de pura índole individualista, saibam vislumbrar horizontes de diversificação e diferenciação, numa lógica de investimento conjunto que potencie o que de mais disruptivo e inovador o sistema tecno-científico do território tem para oferecer”.

Byung-Chul Han, um filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim deu o mote certeiro para a mensagem que Bragança queria transmitir. Citou-o ao afirmar que “numa constelação, que não está centrada num actor individual, o poder cria (…) uma continuidade. Constitui a gravitação de uma totalidade que enlaça umas partes com as outras, intermediando entre elas”.

E por isso sustenta, num tempo de escolhas partidárias, que “tomemos consciência da importância de cada um de nós na construção de uma sociedade mais coesa e solidária, mais próspera e justa, mais sábia e feliz”.

Nesta reflexão sobre o papel do indivíduo e do colectivo, na construção de uma comunidade, “o que existe de comum é a sua natureza imprescindível”

Concluiu que Afonso Henriques e a Batalha de São Mamede foram imprescindíveis “na construção do futuro da nossa cidade e do nosso território”

“Um futuro para o qual fazer parte é a única escolha” – terminou ao jeito de um apelo a quem não se divide por ideias mas por funções.

© 2024 Guimarães, agora!


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